O grande silêncio
July 1st, 2008Seria muito conveniente ter um tapete onde pudéssemos varrer Cho Seung-Hui, preferívelmente um tapete metafísico para banir também a imagem e o significado dos 32 mortos na Virginia Tech. Poderíamos então continuar com nossas vidas distraídas e neuróticas e curar nossos nervos com as notícias de televisão sobre pessoas de longe que estão morrendo e de como a forma que agimos é certa, por que estamos levando a liberdade para eles, a mesma liberdade que os hippies e as grandes corporações gostam de apoiar.
A maioria de nós já o varreu para baixo de um tapete de esquecimento e nós espiamos por baixo dele somente quando uma agência de notícias grata pela existncia de uma história que soa-”significante” — chorosa, raivosa, indignante ou nauseantemente inspiradora — a expõe através de um incessante clamor da mídia de massa. Uma vez que a mídia é um produto, eles têm que manter as máquinas correndo, e se o caldo é aguado, nós podemos colocar uma galinha e uns grãos velhos até que engrosse. Próxima parada: uma entrevista com o cachorro do vizinho de Cho.
Nossos cérebros que não dormem nos impedem de varrê-lo completamente. Alguns dos nossos melhores pensamentos ficam lá, por que nós estamos acostumados com uma sociedade onde a realidade é separada da realidade pública, e então nós cinicamente consumimos a mídia, mas conseguimos nossas informações mais válidas de amigos confiáveis ou sábios comentadores. Isso nos lembra de nossos empregos, onde nossos chefes nos dão tarefas baseados nas capacidades publicadas sobre os produtos, e nós temos que grudá-los junto ao mundo real com cuspe e fita crepe. Nós recebemos grande proclamações do governo e da mídia e as traduzimos num filtro de motivações de mínimo denominador comum: negócios como sempre, cada pessoa clamando o que for para se enriquecer.
Nas partes animais antigas do nosso cérebro, onde o cálculo de sobrevivência ocorre, que são tão fundamentais até mesmo os ataques da mídia não podem enegrece-los completamente, nós estamos cientes de um arquétipo fundamental no qual Cho se encaixa. Nós o enxergamos fora da preocupação moralizante dos nossos âncoras de TV liberais, fora do contentamento gordo e flácido dos nossos magnatas ricos e fora da salada científica de frases psicológicas que fazem parecer com que sua condição fosse diagnosticável e não a escolha de um homem desesperado. Nós percebemos que ele é o predador que chega quando a presa se torna muito gorda.
Bem como na natureza, quando uma espécie se torna próspera e super-popula uma área ao ponto de não conseguir mais se alimentar, e os predadores chegam, quando a humanidade cresceu além de toda a lógica e está a caminho de uma queda massiva, predadores como Cho aparecem, dirigidos pela raiva da imersão entre muita gente inútil. Nós lamentamos a forma que a humanidade é a única espécie que faz guerra contra si mesma, mas um pensamento fantasma atinge a nossa mente: se nós não formos podados, um destino pior ainda nos espera?
O predatismo de Cho é diferente pois ele não estava fisicamente faminto, mas metafísicamente. Ele estava longe de uma cultura que o compreendia. Foi negado a ele status que outros tinham, falavam “volte para China” quando ele era jovem, e ele se achou numa escola cercada pelas crianças ociosas da classe média americana. Essa classe média é composta geralmente por pessoas que vieram de origem mais pobres, acharam uma forma de conseguir riqueza na sociedade com algum negócio ou outro e agora vivem num esquecimento confortável por que eles não têm a ante-visão que pessoas de educação precisam.
Eles são como peixes fora d’água bem como Cho era, e o seu comportamento viciado (uso de drogas, consumismo, promiscuidade) nos enoja quando os vemos — mas eles acreditam que não os vemos. Por isso as pessoas são secretivas, entendendo o que é vergonhoso para o cérebro animal não por razões morais, mas pela consciência de que o seu comportamento e a sua vida são produtos da inércia e de nada útil, quando cometem seus pecados. Eles parecem imprudentes, mas estão contando conosco para que defendamos sua liberdade de agir de forma estúpida e a nossa constante distração para que não lembremos de todos os incidentes. Predadores como Cho, no entanto, fizeram as contas.
Talvez essa seja a razão que tão poucos tenham ficado contra ele. Um estudante fez uma barricada numa porta com uma mesa e foi chamado de “herói”, pelo que outras gerações mais saudáveis considerariam a resposta mínima aceitável para a situação. Ninguém o desafiou. Quando os policiais chegaram, eles levaram um tempo para limpar a cena antes de entrarem. Ninguém quer morrer só por um emprego e o que o faz apenas um emprego é que nós não confiamos nos nossos concidadãos fracos e insípidos. Você morreria por um idiota?
As vozes chorosas da mídia e pessoas idiotas e de mente vazia preencherão os textos por semanas com pensamentos preocupados e cheios de insights sobre o evento, mas não terão respostas, por que a verdadeira resposta é tão óbvia que tanto não é necessário dizer, quanto é violentamente um tabu. Eles vão dizer o quanto ele estava deprimido, ou talvez psicológicamente debilitado, mas se olharmos para a humanidade como uma espécie natural, nós vemos a situação como uma de várias ovelhas para lobos insuficientes. Às vezes a ovelha dá a luz a um lobo entre elas em tais épocas.
Deveria ser preferível termos predadores honestos novamente. Um predador arromba a tua porta e o consome para alimentar uma quantidade normal de crianças. Um parasita arruma sua forma e entrar na tua vida com palavras meigas e diagramas de marketing e então senta na tua mesa e leva cada dia um pouco, mas dá cria a uma outra quantidade exponencial de parasitas. Predadores matam rapidamente, e parasitas lentamente. Nós somos cercados de parasitas que usam abstrações sociais como economia e moralismo para contribuírem com nada a não ser roubarem riqueza e energia de nossa civilização. Predadores os aparam, bem como na natureza eles removem o velho e o doente.
É claro que ninguém quer enxergar as coisas dessa forma e admitir que somos orgânicos (pensamentos de morte e defecação entram na mente). Eles preferem culpar os lobistas das armas, que está indignada com essa execução, falando que gente mata gente, não armas. Eles estão certos. As armas apenas facilitam. O segredinho sujo dos lobistas pró-armamento é que atrás do cérebro deles, eles sabem que um governo feito pelas pessoas não pode ser confiável, por que a maioria das pessoas não tem discernimento para viverem como indivíduos, e num grupo, eles fazem o pior tipo de comitê de decisões lógicas bem intencionado e mal-designado que prioritariamente ajuda a sufocar pensadores independentes. Eles querem armas para que quando chegue a hora eles possam se defender contra a ditadura das massas.
Coreanos temem que essa retribuição aconteça. Provavelmente eles estão lembrando da respostas das comunidades negras e latinas de Los Angeles durante a revolta, que ao invés de marcharem contra os magnatas ricos que moram nos morros de Hollywood, atacaram as lojas de conveniências locais por que os preços estavam altos. A sua maior declaração política era saquear inconsequentemente. Os preços altos vieram de altos custos de seguros dados às pessoas que moram nos morros, mas isso não apareceu na mente do povo raivoso armado com fogo.
A comunidade coreana deveria se preocupar, mas não apenas com esse incidente, uma vez que a nossa mídia explicou para a maioria dos americanos que para ser uma pessoa boa e justa não devemos culpar toda uma comunidade pelo que um de seus membros fez. Isso por si só é justo. Não que os coreanos estejam conspirando para produzir atiradores excelentes para faculdades, para que eles então possam declarar a mais alta contagem de mortos (lembrando de No Gun Ri, talvez). A comunidade coreana deveria se preocupar por que a história mostra que nenhuma nação multi-étnica já emergiu com uma cultura intacta e todos imediatamente descenderam a um status de terceiro mundo. A escolha deles é ser um alvo, ou ser assimilado numa nação que já foi rica e que tem um futuro bem menos rentável.
E os homens estudados de Washington e Nova Iorque temem que, de alguma forma, apesar de nosso elaboradamente inventivo mecanismo de moralismo e os estudos psicológicos “oficiais” que os seguem, nós não podemos inteiramente explicar o que aconteceu em Virgínia Tech. Eles estão certos: psicólogos ofereceram cenários e conjecturas mas nenhuma razão clara do porquê. Nós tememos as coisas que não podemos explicar por que isso implica que essas rachaduras nas nossas ciências podem extender-se para a nossa sociedade. Uma vez que as nossas respostas a isso tem sido inúteis, parece mesmo.
No meio tempo, o declínio lento e gradual que tem sido evidente desde o império Romano continua. Nós paramos de confiar em nossos líderes geneticamente capazes, gênios naturais como Sócrates e Aristóteles, e começamos a definir nossas vidas em termos materiais para a conveniência do indivíduo. A verdade desapareceu por que nós podíamos escolher quaisquer verdade que quiséssemos, se pudéssemos pagar por ela. Depois que nossa espécie trabalhou por muito tempo para conseguir um ponto de riqueza e conforto, aqueles que apareceram no caminho usaram a riqueza e conforto para voltarem-se aos seus mundos pessoais, e usaram a força política para fazer com que essa regra se aplicasse a todos.
Consequentemente, nós ficamos mais burros e não mais inteligentes com o passar dos anos, e mais complacentes por que nossas vidas não têm nenhum sentido real. Nós estamos aqui para que tenhamos conforto e para criar uma realidade metafísica confortável, não para explorar o mundo e nos desafiar. Nós somos impedidos de apontar a estupidez alheia pelas regras do rebanho. Nós nos expandimos sem pensar, enquanto a população de pessoas inteligentes proporcionalmente (e literalmente) diminui. A humanidade é um estômago sem cabeça a devorar a Terra e propagar-se de forma burra e insípida.
É por isso que temos predadores, e é por isso que quando você liga a TV ela está cheia de debates infinitos sobre tudo o que é óbvio. A mudança de clima global pode e não pode ser verdade, mas é óbvio que se você cobrir um planeta inteiro com cercas e concreto, você matará a sua vida natural de tal forma que você não poderá substituí-lo com algo melhor. Nosso breve passeio pelas justificativas humanas tem sido substituído por uma obscura realidade de conflitos futuros: étnicos, religiosos e territoriais. Estamos retornando ao que éramos, como se a a natureza estivesse fazendo um reboot para ver se não consegue se livrar do lixo que têm na memória.
Cho Seung-Hui é parte desse reboot. Se soubéssemos o que é bom pra nós, enquanto espécie, nós clonaríamos cem mil Cho Seung-Hui e os deixaríamos a solta na sociedade em larga escala. Talvez nós déssemos a eles machados ao invés de armas, mas nós deixaríamos esses predadores clamar aqueles aos quais a insipidez previne qualquer direção real na vida e ainda os abona com uma falta de vontade de viver. Eles se preservarão passivamente se tiverem escolha, mas não terão a habilidade criativa de lutar pela sobrevivência. Coloque numa floresta intocada por uma noite, eles morreriam de fome e congelariam por que o seu estilo de vida não é o de trabalhar duro, fazer fogo e achar comida.
As conversas acéfalas vêm de vozes que temem que o óbvio seja visto, e aqueles que ainda têm o potencial para o serem lobos possam acordar e ver quantos precisam de limpeza. Se quisermos evitar esse tipo de incidente no futuro, nós precisamos parar de culpar Cho e analizá-lo com uma retórica estéril e sem sentido, olhando além dos porquês do acontecido. Nós podemos banir todas as armas, cobrir o mundo com plástico bolha, e colocar avisos de perigo em todas as portas, mas não podemos escapar da inércia interior. Enquanto escapamos da realidade, nós a trazemos para nós mesmos, e se não a encararmos com uma perspectiva mais valorosa e corajosa, ela logo irá nos consumir.
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Do original The Big Silence, publicado em 22 de abril de 2007, na seção Perspectives, do American Nihilist Underground Society.